Era uma vez uma menina de três anos que não queria ser escritora.

Caminhada

Não queria, pois escritora já era, desde antes de aprender a escrever; quando na impossibilidade de materializar no papel as palavras que lhe brotavam, ditava suas obras para seus pacientes pais. Aos três anos, num ímpeto de independência, exigiu que lhe fôsse ensinada aquela maravilhosa arte criptográfica: a escritura.

E assim foi feito. E a menina tomou gosto pela preciosa ourivesaria das palavras, e verteu em incontáveis cadernos os rios de sua alma. E escrever tornou-se tão imprescindível e natural como respirar. E com o tempo, até mesmo talhou-se um certo talento.

A menina tinha uma alma imensa, mas um espírito solitário. E solitária cresceu, perdida entre as multidões da ignorância. De poucos amigos tornou-se; pois entre seus muitos defeitos, o maior era a intolerância ante a baixeza e a estupidez humanas. E tudo ruminava, esculpindo poemas e pintando textos. E tudo guardava para si. E sempre se sentiu exilada de si mesma, desde que abandonou a casa de sua infância.

Um dia encontrou, em meio às desilusões pedestres de todos os dias, um olhar de olhos antigos. O amor aconteceu naqueles olhares. A menina casou, partiu seguindo um coração que não era o seu, mas que lhe pertencia; aventurou-se em terras estranhas. Cresceu e virou mulher. Duas coisas levou consigo: a solidão enraizada nos ossos, e seu mundo de palavras.

Anos depois, ainda amava, ainda escrevia, ainda solitária. Então, maravilha entre as maravilhas, seu amado abriu-lhe as portas do verdadeiro Admirável Mundo Novo: a internet – essa terra sem fronteiras, sem governo, sem geografia. Empurrada pela aquariana curiosidade, percorreu inúmeros caminhos; descobriu o mundo.

Em suas buscas errantes, encontrou um lugar que a princípio lhe pareceu estranho: a blogosfera. No entanto, logo descobriu que lá estavam as coisas pelas quais sempre ansiara: outros espíritos solitários, estuários onde desaguar seus rios de palavras, informação ilimitada, espaços que poderiam ser seus, uma comunidade feita à sua medida, amigos tão escritores quanto ela. Pontes, portas, perguntas, respostas, ecos.

Hoje, com os pés descalços plantados no alto de uma colina, a menina contempla a míriade de blogs que se estendem nas terras ao seu redor, e sorri.

Estou em casa.

Nospheratt

I write. I read. I drink beer and mate. Whatever pronouns.

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